Dandelion


 Eu desejei que fosse a última coisa a ser dita. O último beijo a ser tomado. O ultimo suspiro do afago. O ultimo olhar antes de tudo dar errado. Quis que fosse o último para que o inicio pudesse começar. Não por medo de recomeços, mas por ter encontrado o final para os começos felizes.


Mas, nem só de anseios vive o desejo. Nem só de carinho, forma-se o apego. Nem só de momentos, mora a felicidade. Meios sorrisos, incompletas verdades. A algo a se pensar e mais ainda a esquecer. Conta-se nos dedos , se pensar em voce. 


A vastidão de pensamentos, sem ser vista como destino final, mas como parte do trajeto. Um eco que se estende, cujos traços sente tão bem. A espera de um nome sem querer nomear. Pensa-se lento, varre para baixo. Uma melancolia que vem em ondas e por dentro, forma-se poesia. O que era descanso, se vira por dentro.


Apega-se ao que rouba metade de si, exige energia; o que era conexão, só existe com perdão, devolve-se a si o que é raro de existir.Nas costas, sustenta uma versão atualizada, mas sempre cansada, que é mais dos outros do que de si. Perdida no silencio e que, tantas vezes, rebela-se no secreto. Por quanto tempo vai deixar crescer, até romper?


No fundo, passeia-se pelos cômodos, visitando outras versões, sentindo que há um vazio e que a ordem não se encontra. Vastidão antiga, intensa e perdida. Beija-se como uma despedida, rara como Dandelion and Burdock a cabeça, um zumbido que não para. Notas dissonantes, memórias e sentimentos que gritam nos ouvidos.


A trilha sonora que por fora dá sorrisos, porém escuta-se o silencio de quem dança sozinho, no meio de uma bagunça que para muitos não faz mais sentido.

Passagem


 Parece que faz anos que na minha cabeça chove e disso é impossível desmentir. Exagero ou não, sinto que fico procurando sem nada encontrar. Apenas seguindo dia após dia, vasculhando dentro algo que possa me salvar. Pássaros tristes ainda voam, sabia disso? Eles precisam voar. 


E eu posso dizer que te odeio, mas se chegasse perto demais, não sei o que faria. A paralisia me impediria de movimentos bruscos, de seguir vontades incontroláveis e tentaria na mente o que tentei na realidade. É dificil rir quando a piada sou eu, e eu fico imaginando que tudo de bom poderia ter acontecido ao invés das ruins.


E talvez eu nunca mais faça promessas a mim mesma ou aos outros. Perdoo-me quando afastei para longe e ainda mais por querer por perto. Perdendo o controle, quando nunca o tive. Agradeço pelas coisas boas que vivemos e pelas ruins também. 


Esta sou eu nunca partindo de mim, mas daqui. Continuo sendo quase a mesma dizendo que odeio, sem ter um pingo disso aqui ou acolá. Nunca fui ódio, mas também nunca fui rancor. Nunca fui vingança, nem desejo o mal para quem fez seu pior.


Insisto em acreditar que coisas boas surgem de lugares ruins. Ou coisas ruins surgem de algo de bom. Nesse meio termo, existo. Pensando que ainda mereço viver aquilo que vejo os outros sentindo. Não seria desespero viver no apego , nem desleixo crer nisso. Nem questão de tempo, ou talvez seja passagem. Determinado ou não. 


Sem subornar mais portas, fechando antes de baterem. Ninguem é a prova de balas, mas aqui estamos , saindo daqui e sem ter para onde ir. Não de verdade. Quando procura meu toque, eu o afasto. Porque não há nada menos digno do que cometer os mesmos erros so para ter alguns minutos de apego. Eu acho graça, mas por dentro são circulos de vazios que voce não seria capaz de preencher. 


E a gente sustenta aquilo que podemos ser, mas sabemos que merecemos algo melhor. O palpavel do cuidado, o toque mais afavel, o carinho nas palavras, os sonhos divididos, os desafios cometidos. Entrelaçar algum dia o impossivel.

Meia noite


 Olhando para um céu escuro, a noite foi do medo a companhia. Dos pesadelos ao silencio da melodia, da insônia a não sonhar tanto como antes. O noturno que me lembra que com a escuridão, é possível ver as estrelas. Pequenas em uma imensidão que desenham incertezas. Não as alcança, mas as deseja. Enquadro como se pudesse viver entre elas: distante, brilhante e única entre tantas.

Meu antigo vício de encara-lo me trazia calmaria no caos. Me perguntei porque tinha parado de ve-lo como abraço a quem antes me via de cima. Dentro do meu peito, não pertenço tanto ao chão que toco, mas ao infinito que espero. Colidindo em pensamentos, fazendo barulho no silencio.


O relogio que bate á meia noite, o qual recebia preces, agora não é alvo de pedidos bobos. O mesmo tempo que era gasto vendo, agora é tomado de formas diferentes. Sem tantas lagrimas, com poucas palavras. Celebrando alguns momentos, apoiando outros alentos, escutando mais e se doando um pouco menos.


Ainda é meia noite, e ela ainda existe. Quando se chega perto, ela se afasta rapido demais. Aprendeu que com palavras demais é traída e com o de menos, é negada. O equilíbrio das suas páginas está nos enigmas. E suspira como se pudesse soltar tudo o está prendendo.


E com as outras pessoas, ela se esvai. Quando queria tudo, perdeu uma versão que poderia ser, mas tornou-se a melhor história para se ler. Não se pode quebrar o que continua quebrado, mas pode continuar estilhaçando o que não está colado. Então, fecha os olhos, sente a brisa, se cobre mais um pouco e quando o dia amanhecer, talvez a queira de novo.


Navegantes


 Mudando de rota, sem trocar de capa.

Sem divergir essência, sem sentir sua ausência.

Com uma lágrima no meu coração,

esse foi o aviso da minha intuição.


Nas pequenas tentativas, moldo o dia a dia.

Converso com a rotina e a chamo pra brincar.

No enfrentar do novo, me desafio a tentar.

E nessa coragem, me tiro para dançar.


Estarei em outra rota, te desejando sorte na caminhada.

Me retirando devagar , com leveza.

Ainda com a cicatriz do que fomos um dia,

Do que seria verbo e virou uma história,

que não será contada para nossos filhos.



Os capítulos serão narrados sob outra perspectiva.

Com dias de sol e chuva, tempestade e ventania.

O relógio contará horas não vividas,

sonhos nao realizados, palavras não cumpridas.


E se nas tuas entranhas, sentir o peso das horas não vividas,  

o interstício estará na espreita de um dia.  

Entre dois eclipses, duas constelações.


Por agora, sou como onda que se retira:

levo estrelas, deixo trilhas na areia.  

A esperança é minha bússola,  

apontando para onde a dor não queima.  


Quebro as pontes que ergui, guardo-as na bolsa,  

as cartas não lidas, os sonhos do adejo.  

Cuja lição foi dura, mas aprendida.

Onde os mapas eram entregues, 

mas tu não eras navegante — e sim, espelho.  



Parto em passos curtos, leves, de chuva miúda:  

cada gota apaga uma lágrima que desce.

O mesmo talvez antigo, deslizando sob sorrisos.


O amor que um dia te dei volta em névoa:

suspenso e poderoso. Porém, eu — agora — aprendo a ser exílio. 


Solo


É covardia dizer que a gente nao tem nada, depois de ter vivido tudo. Dos olhares cumplices nos lugares lotados. Dos sorrisos envergonhados com os pensamentos mais devassos. Do toque, cujos choques ainda arrepiam meus pelos.


Dos abraços fortes e seguros, do cheiro que inebria e me faz perder os sentidos. Das carícias doces que evoluiam para os apertos fortes, as mãos nervosas e os suspiros. Entre beijos nos perdemos. Um pouco de cada um, sem ceder muito. 


É corajoso se disser que ainda temos algo quando se quer fugir de tudo. Não julgo, não mais. Mas, também não me importo, não tanto se o teu beijo não me esquenta mais. Se o teu olhar não me namora, se o teu toque não me causa descargas eletricas. Se suas piadas não me fazem rir. A palavra não convence desde que a ação seja seguida.


Não há mais fetiche no meu amor. Eu te empurro para longe e não deixo tão perto. Sem exageros na risada, sem palavras sem graça, sem toques escondidos, sem beijos roubados. Acesso negado, portas fechadas e agora não somos mais nada.


Um brinde aos pes descalços, ao coração lavado, ao entendimento que nos levou ao fim. Um brinde a nossa continuação , porém solo e onde é cada um dentro de si. Já que você não conseguiu mergulhar em mim.

Escrever me salva, as vezes. Destroi também, alivia, mas machuca. A ambiguidade da vida. Bem vindo(a), esta é uma parte minha, que também pode ser sua. Com amor, Bia .




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