Insistente


 O mesmo nó que atamos para segurar não é o mesmo que desatamos para soltar. Torna-se dificil. Os dedos ficam machucados, a paciência esgota e desistimos de tentar. Melhor deixar assim, perde-se para se tornar.


Uma caixa com todas as palavras que guardei para um dia falar ou não contar nada. Bem em cima do armaria, como uma traição assombrosa de como a história foi a última ve escrita. Um fantasma no banco de carona , uma música ensaiada há tempos e noites destituídas de sonhos. Cruzando a linha para arrancar o que doeu tantas vezes sempre repetindo pela última vez. 


No final, a gente se acostuma com as ausências, com o silêncio que antes era preenchido alto; com os lençóis bagunçados, com os toques desarmados. É perigoso perceber, que no fim, não há peso da expectativa. A bagagem de tensão, a sensação imediata de dor, a percepção de precisar ser mas não ser. Escurece o coração, endurece o peito, mas protege. Resguarda uma pessoa por inteiro.


Não é cura, é convivência. Conveniência do que já foi, mas que deu tons frios a uma vida vermelha demais. Não sorrimos tanto mais, por vezes escapa e atrai. Não acreditamos assim e nosso coração não sabe mais como encontra-lo, e mesmo assim sente.


Não há remédios para dores no peito, e nessas batalhas, a gente se pergunta o que enfrentamos: o que sentimos ou o que sabemos. Querer esquecer nos mesmos lugares lembrados. Às vezes, eu não queria sentir nada. De vez em quando, finjo.


Se sinto demais, as coisas que penso ocupam espaço demais e se eu deixar me sufocam. Guardo as caixas nos lugares, fecho-as e sigo. Sem dar nomes ao pensamento na mente. Mas, lá estão elas: quietas, caladas, esperando o momento que eu admita que eu sinto mesmo enquanto finjo.

Gangorra


Escrevo essa palavra, mas sem coragem de pronunciar. Devia ter coragem tatuado no peito, mas aqui despejo o quanto tenho tido medo de crescer, mas antes queria tanto isso para crer. Tenho tido medo de amar, tudo para não me decepcionar. Tenho tido medo de acreditar, se eu quiser que tudo de certo e der errado, a frustação virá. A espera de milagres, pequenos sopros para me lembrar que meus desejos uma hora virão, mas preciso ter a coragem para tentar.


Escrevendo percebo que tenho medo das palavras pularem das páginas e me agarrarem pelos calcanhares, me forçando a ficar no mesmo lugar. E se o que eu sentir também for saudade? Saudade dos tempos que eu podia cair e um remedio poderia sarar a ferida; das brincadeiras inofensivas, dos risos espontaneos, dos abraços da vida.


Sentir falta de inventar palavras, sentimentos e crescimentos. Mas, agora não posso mais brincar de me esconder. A vida cobra que eu aparece e lá estou eu para voce. Se eu cair agora, ninguem vai parar para colocar methiolate na ferida para cicatrizar. Preciso me levantar, com o joelho ralado e pedir ao tempo para retalhar. 


Brincar de casinha exige burocracia, responsabilidade e solidão em companhia. Se a brincadeira dá errado, nesse parque o tempo é contado. As gangorras não param para nos esperar o tempo certo para levantar. Elas sobem e descem e cabe a nós acompanhar.


E dá vontade de chorar, cuja exaustão com significados. Não há quem diga que a brincadeira acabou e que ja podemos ir para casa, descansar para acordar animados. É nessa parte que permanecemos atentos, mas levemente fadigados. 


Crescer é uma palavra com muitos sentidos, vários estados. Permanece crescendo, diluindo dentro de nós, nos levando a ser nos mesmos, dando coragem aos nossos medos, que as vezes, fogem de nós para o mundo. Refletindo que até mesmo nossos reflexos no espelho podem enganar.  


Mais cedo ou mais tarde, a lágrima dará lugar ao silencio. A preocupação vira paciencia. O desgosto fica guardado. Continuamos tomando notas do que nos abate e do que nos impulsiona. Hoje triste, amanhã quem sabe. O vento continuará nos alcançando. Feche os olhos mais um pouco até esquecer que tem duvidas sobre voce. 


Faca

                    



 Não há nada que não tenha tentado. Batendo na ponta de faca, quebrando as paredes para reconstrui-las. Tenho medo que minha fortaleza seja de vidro e qualquer toque, me rache no meio como as ultimas vezes. No corredor do apartamento, alucino até te ver. É engraçado como os flashbacks vão e voltam a noite. Me colocando na frente de cada garota que já fui um dia.


Cedo ou  tarde, curvo ao meu silencio, me perco na multidão e tento me convencer que não sou um problema a ser resolvido. Como um nó escorrego no meio dos outros. Me sinto bem em um dia , mas no outro não sei quem sou. 


Confronto as minhas versões que já bateram na parede, e eu mesma sei o custo de sofrer pelo impossivel. Bato mais forte, mas eles me pegam. Me arrancam a socos e tapas, mas eu cedo. Instavel e piorando, não merecendo ficar, mas querendo estar.


Anestesiada até sentir a lamina que tece minha pele, fazendo meus olhos fecharem, cansada de brigar com cada versão que tentei brincar. Cedo ou mais tarde, o colapso vai vir e estarei perdida em meio mundo. Levanto a voz para me convencer que não há nada de errado comigo a não ser te querer. Nunca demais, sempre insuficiente, sem mais.


Virei um beco sem saida, sem ter para onde ir, só querendo fugir. Houve compreensão, mas não foi entendida. Não há ninguem esperando , mesmo quando se planejava acelerar. Desacelera, se afasta e se agarra com unhas e dentes. Para nao se perder do que restou quando deixei de te querer.

Correspondencia


 Tem coisas que nunca te contei, algo que nem eu mesma admito que estou pensando enquanto quero nao pensar. Nas noites mais quentes, quando o silencio faz companhia de forma mais redundante. Me pego imaginando uma casa que antes não era tão vazia.


A vida que não aconteceu, o sonho que não realizou, a viagem que não foi feita, o beijo que não foi dado, o abraço nunca tomado. Não há medo por sentir demais, não se anseia por despedidas antecipadas, nem traições amargas.


Na escrita, existe o nós. Uma bagunça que eu tenho e você nao tem. As coisas simples que gostamos, a música como pano de fundo enquanto cozinhamos. Os corpos se olhando em um banho demorado, o perfume que fica nos travesseiros amassados. Tudo misturado.


O que ecoa pelos cômodos começa com a nossa risada e termina com nosso sussurros baixos ou suspiros pausados. Não preciso me perguntar se sou amada ou não, se tenho alguém por mim. Finalmente, esta é só mais um compilado de palavras nunca enviadas, onde não sei se falo mais de mim, da minha esperança ou de você. 


Fico na mesma intensidade que fui deixada. Sem promessas, sem frases incompletas, sem duvidas. Sem ser procurada, nem encontrada. Virando uma correspondência, sendo a remetente não correspondida de uma casa desabrigada.

Dandelion


 Eu desejei que fosse a última coisa a ser dita. O último beijo a ser tomado. O ultimo suspiro do afago. O ultimo olhar antes de tudo dar errado. Quis que fosse o último para que o inicio pudesse começar. Não por medo de recomeços, mas por ter encontrado o final para os começos felizes.


Mas, nem só de anseios vive o desejo. Nem só de carinho, forma-se o apego. Nem só de momentos, mora a felicidade. Meios sorrisos, incompletas verdades. A algo a se pensar e mais ainda a esquecer. Conta-se nos dedos , se pensar em voce. 


A vastidão de pensamentos, sem ser vista como destino final, mas como parte do trajeto. Um eco que se estende, cujos traços sente tão bem. A espera de um nome sem querer nomear. Pensa-se lento, varre para baixo. Uma melancolia que vem em ondas e por dentro, forma-se poesia. O que era descanso, se vira por dentro.


Apega-se ao que rouba metade de si, exige energia; o que era conexão, só existe com perdão, devolve-se a si o que é raro de existir.Nas costas, sustenta uma versão atualizada, mas sempre cansada, que é mais dos outros do que de si. Perdida no silencio e que, tantas vezes, rebela-se no secreto. Por quanto tempo vai deixar crescer, até romper?


No fundo, passeia-se pelos cômodos, visitando outras versões, sentindo que há um vazio e que a ordem não se encontra. Vastidão antiga, intensa e perdida. Beija-se como uma despedida, rara como Dandelion and Burdock a cabeça, um zumbido que não para. Notas dissonantes, memórias e sentimentos que gritam nos ouvidos.


A trilha sonora que por fora dá sorrisos, porém escuta-se o silencio de quem dança sozinho, no meio de uma bagunça que para muitos não faz mais sentido.

Escrever me salva, as vezes. Destroi também, alivia, mas machuca. A ambiguidade da vida. Bem vindo(a), esta é uma parte minha, que também pode ser sua. Com amor, Bia .




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