Hematomas


Eu posso te ver a beira de um penhasco. Pisando nas suas aflições e eu lembro bem o quanto voce é mestre em disfarçar seus sentimentos. Tenta por sorrisos onde há lágrimas, evidenciando para mim o quanto forte é. As cicatrizes silenciaram suas esperanças. Não sabe mais o que é amor. Nem acredita no significado dela. Não mais.

Você dá tanto a quem pouco te têm. Dançando sob as pedras, subindo montanhas e continuando mesmo com os pés feridos. Pensa que está bem, mas há um vazio que segura e realmente, omite tão bem. Eu sei que voce está sofrendo, e lá no fundo a chuva molha suas lágrimas. Eu queria te abraçar e dizer que estou aqui, mas de longe, peço: " por favor, fique bem".


Sempre gentil com os estranhos, mas nunca gentil para si próprio. Quando está só, põe band-aid nos hematomas, fingindo que os roxos vão ficar invisíveis a si. É tão dificil ser sozinho o tempo todo, mas eu sei . Sei bem que lá no fundo, algo queima e te puxa em direção a quem faz seu coração vibrar. Se molha na chuva e não teme mais mostrar os roxos que foram deixados.


A vida segue e você segue junta. Caça esperança, alcança chuvas de verão, mas pelo prazeres desesperados só sobrevive. Alcança cada vez mais longe quando diz a si mesma que não consegue.  Então, continue errando, continue caindo, continue esbarrando sem querer. Você só ainda não percebeu que na sua maior queda, voce criou asas e começou a voar. Para longe do coração partido, das tristezas e para mais perto de si.

Resposta


 Ele amava ela? Poucos sabem a resposta. Mas, amava o jeito como ela o olhava, sorrindo de lado com os pensamentos maliciosos. O jeito como ela suspirava quando os seus corpos se tocavam, como seu corpo em espasmos dizia que estava flutuando. Como seus longos cabelos ficavam suados e caiam sob seu rosto enquanto ela estava no seu colo. 


Amava como o apertava forte e rebolava, prendendo suas mãos no alto da cabeça. Amava o jeito como suas costas formavam uma arvore definida, quando ele a via de costas. Quando seus pés se entrelaçavam ou quando suas unhas arranhavam suas costas e a marca continua por um ou mais dias. Amava quando seus olhares se encontravam no meio do amor que faziam e palavras eram ditas. Sussurradas e altas.


Amava muitas partes dela. As partes preguiçosas que acordavam junto com o sol. Os olhos de caleidoscópio âmbar que os convidava a beijar. Quando a temperatura dela subia e ele já sabia o que o desejo iria realizar. Assim como seus abraços: apertados, cuja primeira curva sempre era a sua nuca.


Amava quando o corpo tremia, mas não recuava. A entrega antes mesmo do primeiro toque. Na insolência de dois olhares que se reconhecem tão bem. E não se pode mais escapar. Apontam-se gestos, recordações e palavras. Ela apontaria para te encontrar e voce para se perder. Inteiro e por vezes, fragmentado. Mais absoluto do que revelar. 


Amava quando seus sorrisos se encontravam no meio do beijo, em uma disputa silenciosa de quem seria o primeiro a ceder. A mordida no canto dos lábios, o respirar falhado e a visão turva de desejo. O deslizar das suas mãos pelo seu corpo, o olhar penetrante enquanto estava em cima e profundo quando estava por baixo. Na tamanha entrega, pura reciprocidade.


A essência que se despe, nas roupas jogadas no chão, nos beijos no sofá, na parede que te faz lembrar que o corpo ficou desenhado nas suas lembranças. Vivendo de detalhes, perguntando se sua mente também é nublada como a dela.  Se amor é fogo e vai além das borboletas no estomago, no engolir vazio, nos dedos incontroláveis, no olhar fixo e na queima incessante. Então, aceito arder por ela.



Curaste


 Se olhasse direito para o lado, perceberia que algo se perde mais rápido do que imagina. Se andar de um lado para o outro, pudesse resolver o que sente, provavelmente correria uma maratona comigo e ainda não se cansaria.

Do espelho, você me vê e eu finjo que não te vejo. Quantas vezes voce pretende fingir que não me olha, quando é tão na cara que nem disfarçar tenta. Me quer perto e quer longe, nao tem tempo pra mim, mas pede atenção, quando eu desvio meus olhos por um segundo.


E é tão dolorido disfarçar que eu tento aumentar qualquer detalhe que me teve a mais. E eu amo um pouco seu sorriso e vai levar um tempo para esquecer que é dele que eu quero ainda escrever. Eu deixo voce me encontrar, porém se demora demais, o que há mais para insistir?


Para onde quer que eu vire, a esquina me leva até você. Todas as fugas não me trouxeram a lugar nenhum. Passei pelas praias e para encontrar uma vazia que minha mente pudesse te esquecer. E dói ainda lembrar, e mais um pouco quando suas lembranças me encontram nos lugares que nunca fomos, mas eu queria te mostrar.


Morrendo por algo real e há tanto para dizer: que eu quero um pouco mais do seu toque quente, quero que me olhe por mais tempo e fique na minha cama até o amanhecer. Quero que me abrace para que as coisas voltem a ficar bem. Onde nossa conexão ainda existe.


Engraçado que escrevo o que quero dizer e acabo não dizendo nada. Minha coragem só serve diante do papel, mas ela se perde com voce. E deve ser por isso que assumir é um ato de coragem. Já procurei outras formas de abstrair, mas nos teus traços não encontrei. Abafo o grito preso na garganta, enxugo as lágrimas que insistem em rolar. Ninguém ouvirá, mas de quanto tempo mais preciso para me curar?


2 a 2


 Hoje pensei muito no amor. Naquele mesmo que chegamos do trabalho e só queremos o olhar para acalentar. O que abre a porta quando os outros fecham. O que agarra a sua cintura, aperta com força e tira sua roupa. E você deixa.


O mesmo que te beija nos dias que voce se sente mais feia, que massageia seus pés quando o cansaço bate. Dorme abraçado contigo, mesmo com o calor da noite. Beija cada centimetro do seu corpo e te faz fechar os olhos, delirando com os proximos passos.


Aquele que você ve a silhueta e corre para abraça-la, um lar para o qual voltar.As xicaras de café compartilhadas. A dança no escuro com uma trilha sonora que sempre leva a incendiar tudo. O beijo debaixo das estrelas, carinho no rosto que traz paz em um dia tumultuado. 


O mesmo amor que você pensa em usar para contar as seus filhos, cheio de memórias boas e também as ruins. Cujas pedras foram chutadas, gritadas, guardadas, mas sempre resolvidas. O primeiro encontro, o primeiro beijo, os primeiros pedidos. Sem contos de fadas.


O mesmo amor que te dá o poder de construir um mundo junto, mas se um dia acabar, sai destruindo tudo dentro de si. A vontade incessante de querer é a mesma de nao desistir quando está tudo dificil demais. E como um domingo , ele é silencioso e traz um sentimento que nao larguei por um minuto. 


O tom silencioso de que a casa é calma demais sem a presença de um amor para colorir as paredes, para sorrir junto, para beijar na nuca e descer um pouco mais. Cujo 'eu te amo' sussurrado deveria ser sempre lembrado. Cruzar os dedos, puxar mais para perto e ficar um pouco mais deveria ser dito sempre que houvesse desejo. 


E como nos dias mais comuns, nem o sexo, nem o beijo mais aleatório são capazes de preencher o valor de algo de verdade. E é nessas tentativas falhas, que poderíamos tomar um vinho, conversar sobre as nossas histórias, desabafar nos lábios um do outro. Tornar os dias reais de novo, sem desistências se for para existir. 

Rainha de copas

 Existe gente que segue persistentemente, outras ficam silenciosas. Tiram a figura do pedestal, descem da obsessão e ficam caladas. Cansadas de esperar ações que nao vem, decisões esquecidas e palavras que voce desejou ouvir. 


Seguir em frente é mais dificil do que pensei. Metade do tempo não sinto o chão sob meus pés, perco o ar de vez em quando e gosto da sensação de apneia. É uma luta interna dentro de mim mesma, onde não sei se sou corrosiva ou sádica. Os dois, provavelmente.

Tons de cinza colorem meus dias. Eu te desejo e pinto de cores o que devia ser preto no branco. Você veste amarelo e eu te odeio um pouco mais, porque é quando estou em silêncio que resolve fazer barulho. Bagunçar meu foco e retalhar a decisão que decidi tomar. As pontes foram erguidas, as armas continuam apontadas e eu te dei o melhor de mim quando nem inteira estava.


Guardei as páginas mais interessantes para voce me ler, e mesmo assim voce larga o livro na metade. Folheia, delicia e sente falta. Mas, pouco fala. Gosta de me arrancar sorrisos, de me tocar de novo e mais uma vez. Quer me tirar o ar, chegar perto demais. Sussurra para me atentar, mostra o que já toquei e pensa que não percebo as intenções intrusas. Me afasto, porque se chegar perto demais, vou tocar pedaços que eu já sonhei em ter.


Observe-a se afastar, de longe e continua seguindo em frente. Escondendo suas cicatrizes, lembrando quem ela poderia ser. Acabou as confissões. Finalmente aprendeu com seus erros. Foi-se com a brisa do ártico.  Porém me mantenho firme. Fui ensinada a guardar tudo o que ja me doeu e ainda dói, e como o tempo nao cura tudo, ele ensina a esconder. Tornando-me uma mulher de inverno. Sendo metade triste, metade bonita. Continuando quando eu queria ser além de uma história de arrependimento. 


Parece que cometi um grande erro e eu morreria se alguém me rasgasse de novo. Divirta-se um pouco mais, fume mais um ou dois. Beba mais duas ou quatro. Não estarei entorpecida da proxima vez. Uma silhueta inacessível, observando-os de longe e distante de prazeres desesperados, de bocas sujas, de mãos incontrolaveis. 


No alto de uma colina, vestida de vermelha, meu coração se torna gelo e para derrete-lo vai precisar ser muito mais que amigo. Suprimindo a tristeza, sem segundas chances. Areia sob meus pés, mar azul ao meu redor, sozinha no meio de gente demais. 


Sem juramentos ou planos envolvidos. Foi preciso um golpe certeiro no peito para se tornar uma rainha de copas. Sem choros, sem declarações. Quem sabe na espera pelos dias mais quentes. Ela que continua, escorrendo como areia no seu deserto.


Escrever me salva, as vezes. Destroi também, alivia, mas machuca. A ambiguidade da vida. Bem vindo(a), esta é uma parte minha, que também pode ser sua. Com amor, Bia .




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