Passagem


 Parece que faz anos que na minha cabeça chove e disso é impossível desmentir. Exagero ou não, sinto que fico procurando sem nada encontrar. Apenas seguindo dia após dia, vasculhando dentro algo que possa me salvar. Pássaros tristes ainda voam, sabia disso? Eles precisam voar. 


E eu posso dizer que te odeio, mas se chegasse perto demais, não sei o que faria. A paralisia me impediria de movimentos bruscos, de seguir vontades incontroláveis e tentaria na mente o que tentei na realidade. É dificil rir quando a piada sou eu, e eu fico imaginando que tudo de bom poderia ter acontecido ao invés das ruins.


E talvez eu nunca mais faça promessas a mim mesma ou aos outros. Perdoo-me quando afastei para longe e ainda mais por querer por perto. Perdendo o controle, quando nunca o tive. Agradeço pelas coisas boas que vivemos e pelas ruins também. 


Esta sou eu nunca partindo de mim, mas daqui. Continuo sendo quase a mesma dizendo que odeio, sem ter um pingo disso aqui ou acolá. Nunca fui ódio, mas também nunca fui rancor. Nunca fui vingança, nem desejo o mal para quem fez seu pior.


Insisto em acreditar que coisas boas surgem de lugares ruins. Ou coisas ruins surgem de algo de bom. Nesse meio termo, existo. Pensando que ainda mereço viver aquilo que vejo os outros sentindo. Não seria desespero viver no apego , nem desleixo crer nisso. Nem questão de tempo, ou talvez seja passagem. Determinado ou não. 


Sem subornar mais portas, fechando antes de baterem. Ninguem é a prova de balas, mas aqui estamos , saindo daqui e sem ter para onde ir. Não de verdade. Quando procura meu toque, eu o afasto. Porque não há nada menos digno do que cometer os mesmos erros so para ter alguns minutos de apego. Eu acho graça, mas por dentro são circulos de vazios que voce não seria capaz de preencher. 


E a gente sustenta aquilo que podemos ser, mas sabemos que merecemos algo melhor. O palpavel do cuidado, o toque mais afavel, o carinho nas palavras, os sonhos divididos, os desafios cometidos. Entrelaçar algum dia o impossivel.

Meia noite


 Olhando para um céu escuro, a noite foi do medo a companhia. Dos pesadelos ao silencio da melodia, da insônia a não sonhar tanto como antes. O noturno que me lembra que com a escuridão, é possível ver as estrelas. Pequenas em uma imensidão que desenham incertezas. Não as alcança, mas as deseja. Enquadro como se pudesse viver entre elas: distante, brilhante e única entre tantas.

Meu antigo vício de encara-lo me trazia calmaria no caos. Me perguntei porque tinha parado de ve-lo como abraço a quem antes me via de cima. Dentro do meu peito, não pertenço tanto ao chão que toco, mas ao infinito que espero. Colidindo em pensamentos, fazendo barulho no silencio.


O relogio que bate á meia noite, o qual recebia preces, agora não é alvo de pedidos bobos. O mesmo tempo que era gasto vendo, agora é tomado de formas diferentes. Sem tantas lagrimas, com poucas palavras. Celebrando alguns momentos, apoiando outros alentos, escutando mais e se doando um pouco menos.


Ainda é meia noite, e ela ainda existe. Quando se chega perto, ela se afasta rapido demais. Aprendeu que com palavras demais é traída e com o de menos, é negada. O equilíbrio das suas páginas está nos enigmas. E suspira como se pudesse soltar tudo o está prendendo.


E com as outras pessoas, ela se esvai. Quando queria tudo, perdeu uma versão que poderia ser, mas tornou-se a melhor história para se ler. Não se pode quebrar o que continua quebrado, mas pode continuar estilhaçando o que não está colado. Então, fecha os olhos, sente a brisa, se cobre mais um pouco e quando o dia amanhecer, talvez a queira de novo.


Navegantes


 Mudando de rota, sem trocar de capa.

Sem divergir essência, sem sentir sua ausência.

Com uma lágrima no meu coração,

esse foi o aviso da minha intuição.


Nas pequenas tentativas, moldo o dia a dia.

Converso com a rotina e a chamo pra brincar.

No enfrentar do novo, me desafio a tentar.

E nessa coragem, me tiro para dançar.


Estarei em outra rota, te desejando sorte na caminhada.

Me retirando devagar , com leveza.

Ainda com a cicatriz do que fomos um dia,

Do que seria verbo e virou uma história,

que não será contada para nossos filhos.



Os capítulos serão narrados sob outra perspectiva.

Com dias de sol e chuva, tempestade e ventania.

O relógio contará horas não vividas,

sonhos nao realizados, palavras não cumpridas.


E se nas tuas entranhas, sentir o peso das horas não vividas,  

o interstício estará na espreita de um dia.  

Entre dois eclipses, duas constelações.


Por agora, sou como onda que se retira:

levo estrelas, deixo trilhas na areia.  

A esperança é minha bússola,  

apontando para onde a dor não queima.  


Quebro as pontes que ergui, guardo-as na bolsa,  

as cartas não lidas, os sonhos do adejo.  

Cuja lição foi dura, mas aprendida.

Onde os mapas eram entregues, 

mas tu não eras navegante — e sim, espelho.  



Parto em passos curtos, leves, de chuva miúda:  

cada gota apaga uma lágrima que desce.

O mesmo talvez antigo, deslizando sob sorrisos.


O amor que um dia te dei volta em névoa:

suspenso e poderoso. Porém, eu — agora — aprendo a ser exílio. 


Solo


É covardia dizer que a gente nao tem nada, depois de ter vivido tudo. Dos olhares cumplices nos lugares lotados. Dos sorrisos envergonhados com os pensamentos mais devassos. Do toque, cujos choques ainda arrepiam meus pelos.


Dos abraços fortes e seguros, do cheiro que inebria e me faz perder os sentidos. Das carícias doces que evoluiam para os apertos fortes, as mãos nervosas e os suspiros. Entre beijos nos perdemos. Um pouco de cada um, sem ceder muito. 


É corajoso se disser que ainda temos algo quando se quer fugir de tudo. Não julgo, não mais. Mas, também não me importo, não tanto se o teu beijo não me esquenta mais. Se o teu olhar não me namora, se o teu toque não me causa descargas eletricas. Se suas piadas não me fazem rir. A palavra não convence desde que a ação seja seguida.


Não há mais fetiche no meu amor. Eu te empurro para longe e não deixo tão perto. Sem exageros na risada, sem palavras sem graça, sem toques escondidos, sem beijos roubados. Acesso negado, portas fechadas e agora não somos mais nada.


Um brinde aos pes descalços, ao coração lavado, ao entendimento que nos levou ao fim. Um brinde a nossa continuação , porém solo e onde é cada um dentro de si. Já que você não conseguiu mergulhar em mim.

Hematomas


Eu posso te ver a beira de um penhasco. Pisando nas suas aflições e eu lembro bem o quanto voce é mestre em disfarçar seus sentimentos. Tenta por sorrisos onde há lágrimas, evidenciando para mim o quanto forte é. As cicatrizes silenciaram suas esperanças. Não sabe mais o que é amor. Nem acredita no significado dela. Não mais.

Você dá tanto a quem pouco te têm. Dançando sob as pedras, subindo montanhas e continuando mesmo com os pés feridos. Pensa que está bem, mas há um vazio que segura e realmente, omite tão bem. Eu sei que voce está sofrendo, e lá no fundo a chuva molha suas lágrimas. Eu queria te abraçar e dizer que estou aqui, mas de longe, peço: " por favor, fique bem".


Sempre gentil com os estranhos, mas nunca gentil para si próprio. Quando está só, põe band-aid nos hematomas, fingindo que os roxos vão ficar invisíveis a si. É tão dificil ser sozinho o tempo todo, mas eu sei . Sei bem que lá no fundo, algo queima e te puxa em direção a quem faz seu coração vibrar. Se molha na chuva e não teme mais mostrar os roxos que foram deixados.


A vida segue e você segue junta. Caça esperança, alcança chuvas de verão, mas pelo prazeres desesperados só sobrevive. Alcança cada vez mais longe quando diz a si mesma que não consegue.  Então, continue errando, continue caindo, continue esbarrando sem querer. Você só ainda não percebeu que na sua maior queda, voce criou asas e começou a voar. Para longe do coração partido, das tristezas e para mais perto de si.

Escrever me salva, as vezes. Destroi também, alivia, mas machuca. A ambiguidade da vida. Bem vindo(a), esta é uma parte minha, que também pode ser sua. Com amor, Bia .




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